Contos (Sonhos e Pesadelos) - UOL Blog

Bem, não tenho muito o que dizer. Sou um cara com o sonho de ser escritor, se vai dar certo ou não só Deus mesmo sabe. Mas que eu vou tentar, juro que vou tentar. Vou postar alguns contos que vou e-screvendo por passa-tempo aqui, até o dia de tomar coragem pra escrever um livro de verdade rs.

Primeiro mini-mini-mini conto:

Veronica

Mais um cigarro. Já se foram seis deles em menos de uma hora. Juro que não agüento mais ter esse peso sobre minhas costas, juro que se pudesse voltar no tempo teria desfeito tudo que fiz, meu sonho se tornou meu maior pesadelo, e meu carrasco.

Os dois vidros de remédios estão em meu criado-mudo, sei que se ingerir todos morrerei pouco tempo depois, assim meu sofrimento vai embora. Espero não ir para o inferno, de fato espero.

Escrevo isso nesse diário para que as pessoas possam saber pelo que passei, para que talvez aprendam algo sobre a vida, e sobre a morte.

Tenho hoje 23 anos, e tento engravidar desde meus 20 anos. Não entendia o que acontecia, mas mesmo não me prevenindo nunca ficava grávida, e aquilo passou a me deixar cada dia mais nervosa, e a cada dia meu vicio pelo cigarro aumentava.

Apenas dois anos depois de minha primeira tentativa consegui engravidar, meu namorado e eu passamos provavelmente os melhores dias de nossas vidas, comprei roupas, brinquedos e tantas outras coisas mesmo não sabendo ainda o sexo da criança. Tudo corria bem até demais, mas meu vicio ainda insistia. Um cigarro. Dois. Três. Quatro. E as brigas com meu namorado começaram, ele insistia que eu parasse de fumar, pois poderia prejudicar o bebê. E eu fingi que parei, mas sempre que ele saia eu fumava mais um. Dois. Três...

Hoje penso se ele realmente não sabia, acho que ele fingia não ver. Passaram-se um tempo depois e conseguíamos ver por meio de ultra-som o bebê se formando, ainda não era possível saber seu sexo, mas algo me dizia que era uma garota, uma linda garota que se chamaria Verônica, ou Sarah, ou Alice. Os dias felizes continuavam, e meu vicio também continuava.

Eu mesma começava a me sentir mal, sabia que aquilo poderia prejudicar a criança que nascia em meu ventre, mas eu não conseguia... ou talvez não quisesse conseguir. Por que na realidade eu estava com medo. Do parto. Da Responsabilidade. Dos meus sonhos.

E foi aos cinco meses que descobri que ela (Verônica, Sarah ou Alice) estava doente, dentro de mim eu já sentia aquilo. O cigarro havia a deformado, e provavelmente ela nasceria sem seus braços. Aquilo me deixou arrasada. E eu chorei por dias, e meu namorado também. Ele me deixou, mas ele também tinha culpa por que sabia. Sabia e nada fez.

Mas eu não queria que minha pequena garota nascesse daquele modo, ela nunca poderia abraçar alguém, não poderia pegar as coisas como toda criança adora fazer. E eu de fato não deixei que isso acontecesse. Abortei.

Se isso é errado? Sim, eu de fato acho errado. Mas eu não tinha outra opção, era isso ou era ver minha filha (e eu junto a ela) sofrendo. Talvez por toda vida, até a sua morte. Ela provavelmente teria dificuldades para estudar, trabalhar, namorar, fazer amizades... E eu não queria isso. Eu preferia ser chamada de assassina, a ver minha pequena garota sofrer.

E no dia do parto eu juro ter ouvido, juro e não tenho o porquê mentir já que hoje mesmo deixarei esse mundo, que minha garota sussurrou em meu ouvido: “Me chamo Verônica mamãe, por que não me quer?” E a voz se foi.

É claro que toda minha família pensou que eu havia perdido ela, em um acidente que eu mesma inventei. Meu namorado nada disse, alias nunca mais o vi.

Quando abortei minha pequena Verônica já tinha cinco meses, seu pequeno corpo já possuía quase uma forma humana. E eu a vi depois do aborto, e nunca mais a vi nem a ouvi.

Isso até alguns dias atrás. Quatro meses depois do aborto eu e alguns familiares estávamos numa festa e decidimos tirar algumas fotos. E quando revelei as fotos lá estava ela. Era uma garota de provavelmente seus oito anos, mas eu sei. Eu sei que era ela. Por que ela de fato não tinha seus braços, mas sorria. Ela sorria pra mim. E eu chorei.

Joguei a foto no lixo e tentei continuar minha vida, mas é impossível. Eu ouço ela me chamar, ela está sozinha na escuridão me esperando. Eu a vejo em todos os lugares que vou, e mesmo quando durmo a vejo em meus sonhos.

Pequena Verônica me aguarde minha menina. Estou indo a seu encontro. Desculpe-me se te fiz sofrer. Agora vou deixar esse diário aqui ao lado da minha cama, e vou tomar todos os remédios dentro daqueles dois potes. Espero que não sinta dor, ou talvez espero que sinta muita dor. Espero conseguir chegar até você doce Verônica, espero que possa então me perdoar. Verônica... Te amo.

Fim!

(Viu só? Fumar faz mal a saúde rs)




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